Ervas de Axé: O Poder Sagrado das Folhas nos Rituais de Orixá

As ervas de axé sustentam toda a base das religiões de matriz africana. Sem a força do reino vegetal, o ritual não acontece e a cura não se manifesta. Como afirma o antigo ditado litúrgico: “Ko si ewe, ko si Orisa” (Sem folha, não há Orixá). No Reino de Xangô, nós honramos cada folha como um reservatório de energia vital capaz de equilibrar as vibrações dos filhos de fé.

Neste guia completo, explicaremos a função dessas plantas nos banhos e ritos de iniciação. Além disso, mostraremos como você pode utilizá-las para atrair a proteção das divindades no seu dia a dia.

A Importância das Ervas de Axé na Tradição Iorubá

Nas casas de Batuque do Rio Grande do Sul, o conhecimento botânico representa uma herança sagrada. Os zeladores de santo não tratam as folhas como meros recursos decorativos, mas sim como elementos vivos que unem o mundo material ao espiritual. Por isso, divindades como Ossaim e Ogum atuam como os grandes guardiões dessa sabedoria ancestral.

Consequentemente, a presença do verde no terreiro garante a circulação do Axé. Portanto, entender a classificação dessas plantas torna-se indispensável para qualquer iniciado que busca evolução espiritual.

A folha tem uma importância vital para o povo do santo, sem ela é impossível realizar qualquer ritual, dai existe um termo corriqueiro do povo do santo que diz: ko si ewe, ko si Orixa ou seja, (sem folha não existe Orixá).

Todas as folhas possuem poder, mas algumas têm finalidades específicas e nem todas servem para o banho ritual, nem para os ritos. O seu uso deve ser estritamente recomendado pelo Babalorixá ou em comum acordo com o Babalosaim (sacerdote conhecedor da ação, reação e consequência do poder das folhas), pois só estes sabem a polaridade energética, “positiva ou negativa” de cada uma delas e a necessidade de cada indivíduo. Para sua utilização nos ritos, deve-se saber as Sasanha (cânticos específico para folha) e o Ofó (palavras sagradas) que despertam seu poder e força “axé”. Ossaim é o grande Orixa das folhas, grande feiticeiro, que por meio das folhas pode realizar curas, pode trazer progresso e riqueza. É nas folhas que está à cura para vários tipos de doenças, para corpo e espírito. Portanto, precisamos lutar sempre por sua preservação, para que consequências desastrosas não atinjam os seres humanos.

Seguem Algumas Ervas de Axé e Suas Classificações

Para que o seu ritual alcance a força necessária, você deve conhecer as propriedades específicas de cada planta. Abaixo, detalhamos algumas das espécies mais fundamentais na nossa liturgia:

Nome Popular: Jarmim-manga, Janauba

Nome Científico: Himamanthus drasticus

Nome Litúrgico: ítètè

Orixá: Odé/Otim

Elementos: Terra/Masculino

A janaúba é uma planta medicinal conhecida também como janaguba, tiborna, jasmim-manga, pau santo e raivosa. Ela possui folhas verdes largas, flores alvas e produz látex com propriedades cicatrizante e germicida.

Suas folhas são utilizadas em rituais de iniciação, obrigações periódicas e banhos purificatórios para os filhos de Odé.

Nome Popular: bem-me-quer, margaridão, jambu-bravo

Nome Científico: Sphagneticola trilobata

Nome Litúrgico: bánjókó

Orixá: oxum

Elementos: agua/feminino

Herbácea facilmente escapa dos jardins para áreas verdes onde há mata nativa competindo com as plantas nativas. A planta forma uma camada grossa sobre o solo impedindo a regeneração de outras espécies além de escalar outras plantas e estruturas.

Nos terreiros as folhas são utilizadas nos rituais de iniciação, banhos e sacralização dos objetos rituais de alguns orixás como bará, ogum, odé, ossaim, oya e xangô.

Não encontramos nenhuma utilização no campo da medicina.

erva_tostao

Nome Popular: Erva-tostão

Nome Científico: boerhaavia diffusa

Nome Litúrgico: étipónlá

Orixá: Xangô e Oyá

Elementos: Fogo/Masculino

Este vegetal é muito utilizado e reverenciado no ritual das folhas de ossaim – “IFÁ OWÓ OMO EWÉ ÉTIPÓNLÁ BÀ IFÁ ORÒ” – ifá é dinheiro, ifá são filhos, a folha de étipónlá é abençoada por ifá – gozando de grande prestígio nos terreiros como planta “contrafeitiços”.

Pessoas ilustres no culto a egungun usam este vegetal com frequência, pois ele é uma ótima defesa contra entidades maléficas. Contudo, é preciso utilizar as folhas com moderação, pois podem causar irritação na pele.

Na medicina, o vinho feito com as raízes desta erva é diurético e regulador das funções hepáticas.

Nome Popular:  Caruru-da-bahia

Nome Científico: corchorus olitorius

Nome Litúrgico: óyó

Orixá: Xangô

Elementos: Fogo/Masculino

Na África, este vegetal aparece nos mitos de ifá, com o nome de ayó. Os mitos contam que esta planta foi utilizada por Orumilá para agradas as feiticeiras, evitando, deste modo, que elas viessem a prejudicar os homens.

Nos candomblés brasileiros, o caruru é utilizado para preparar amalá para uma qualidade específica de Xangô (Baru), que não come quiabo, pois não gosta da gosma produzida por ele.

Em Banhos é uma erva positiva no combate a demandas, sendo utilizada ainda no àgbo dos filhos de Xangô.

BOLDO

Nome Popular: Boldo-de-jardim, tapete de oxalá

Nome Científico: Plectranthus barbatus

Nome Litúrgico: Ewé Bàbá e Ewuro Bàbá

Orixá: Oxalá

Elementos: Ar/Feminino

Seu nome popular, tapede de oxalá, advém do fato desta planta ter suas folhas aveludadas com tonalidade esbranquiçada. É planta indispensável nos banhos de purificação, na lavagem de objetos ritualísticos e nos àgbo dos iniciados.

ERVA_DE_SAO_JOAO

Nome Popular: Erva de são João, mentrasto, picão-roxo

Nome Científico: Ageratum conyzoides

Nome Litúrgico: Àrúnsánsán

Orixá: Xangô / Orumilá

Elementos: Fogo/Feminino

Nas religiões afro brasileiras, também é conhecido como isúmi uré. É utilizada nos banhos de purificação, sacudimentos para combater feitiços, pois esta é considerada uma das melhores folhas de defesa contra demandas e perturbações espirituais.

O uso medicinal desta planta emprega-se nos chás com as folhas para combater cólicas intestinais, diarreias, reumatismo, artrose como antidepressivo. É tônico, excitante, anti-inflamatório, analgésico e cicatrizante.

Nome Popular: Aroeira-vermelha, aroeira-pimenteira ou poivre-rose

Nome Científico: schinus terebinthifolius

Nome Litúrgico: Àjóbi, Àjóbi Oilé, Àjóbi Pupá

Orixá: Ossaim/ Ogum/ Bará

Elementos: Terra/Masculino

As folhas da Aroeira são comumente empregadas nos sacrifícios de animais de quatro patas. Acredita-se que, pela manhã, ela seja atribuída a Ogum, à tarde pertença à Bará/Exú e sirva, ainda, para enfeitar e vestir Ossaim. Seus galhos são utilizados em ebós e sacudimentos.

Como antirreumático, a aroeira é frequentemente utilizada na medicina popular. A resina é utilizada para combater orquites crônicas e bronquites. O cozimento da casca é indicado para tratar feridas, tumores, inflamações, corrimentos e diarreias.

Nome Popular:  Aroeira Branca, Aroeira Brava

Nome Científico: lithraea molleoides (vell.) engler, anacardiaceae

Nome Litúrgico: Àjóbi Funfun ou Àjóbi Jinjin

Orixá: Xangô/ Oyá

Elementos: Fogo/ Masculino

Esta planta é utilizada principalmente em sacudimentos. Sendo considerada uma “folha quente” é utilizada também em banhos contra espíritos negativos e demandas, porém não pode ser utilizado na cabeça. Em algumas casas esta planta é considerada como negativa e sua utilização é evitada, isso devido à crença de que esta planta desprende eflúvios ou emanações perigosas e que pode causar urticária, coceiras, febre e problemas nos olhos para quem for alérgico. Sua utilização deve ocorrer com muita cautela.

DENDEZEIRO

Nome Popular:  Dendezeiro

Nome Científico: Elaeis guineensis

Nome Litúrgico: Igi Òpè e Màrìwò

Orixá: Oxalá e Ogum

Elementos: Ar/Masculino

O dendezeiro é encontrado em povoamentos Africanos desde o Senegal até Angola. Especula-se que a palmeira tenha chegado às terras brasileiras junto com os primeiros cativos africanos à Capitania de Pernambuco de Duarte Coelho, entre 1539 e 1542, trazida pelos feitores de escravos.

É imprescindível em qualquer terreiro, devendo ser uma das primeiras arvores à serem plantadas no seu “espaço-mato”, de preferência ao lado direito da porta de entrada principal.

A Folha do Dendezeiro é desfiada para fazer o Màrìwò e serve de vestimenta para ogum: OGÚN KO L’ASO, MÀRÌWÒ L’ASO OGÚN O (Ogum não tem roupa, màrìwò é a roupa de Ogum). Este mesmo Màrìwò colocado nas soleiras das portas e janelas das casas atrai a proteção de Ogum e afasta influências nefastas.

PATA_DE_VACA

Nome Popular: Pata-de-vaca

Nome Científico: bauhinia forficata

Nome Litúrgico: Abàfè

Orixá: Xapanã/ Oyá

Elementos: Terra/ Feminino

É uma árvore ornamental, apreciada em áreas urbanas por suas belas e grandes flores. É usada tradicionalmente como medicamento e tem sido objeto de estudos no controle da diabetes. Estudos científicos comprovaram a planta é capaz de reduzir a hiperglicemia tendo ação semelhante a da insulina. Além disso, estudos comprovam um importante potencial antioxidante dos extratos da planta. A espécie é pioneira e importante na regeneração de matas degradadas.

Não é uma planta tão utilizada na liturgia dos Orixás, mas entra nos banhos de filhos de Xapanã (Para de Vaca com flor branca) e Oyá (Pata de Vaca com flor púrpura) podendo as flores também serem utilizadas como adorno para os Axés destes.

Nome Popular: Falso cardamomo, Colônia e Louro-de-baiano.

Nome Científico: alpinia zerumbet

Nome Litúrgico: Tótó

Orixá: Odé/ Iemanjá

Elementos: Terra/Masculino

Esta é uma espécie de Alpinia nativa da China e Japão. Suas folhas e flores são popularmente usadas como expectorante, as folhas para afecções da pele, as sementes e rizomas são consideradas aromáticos, estimulantes do peristaltismo intestinal, abortivo, úteis no tratamento de úlceras e como calmante natural.

Considerada como uma folha Eró (de calma) a colônia é de grande importância no uso litúrgico e entra nos banhos, na lavagem de objetos ritualísticos e nos àgbo dos iniciados. Suas flores são atribuídas à iemanjá.

Muito utilizada na medicina rural, a infusão das flores desta planta é excelente para acalmar pessoas em estado de histeria. Em forma de chá combate pressão alta e arritmias cardíacas.

GAMELEIRA_BRANCA

Nome Popular:  Gameleira Branca

Nome Científico: Ficus doliaria

Nome Litúrgico: Ìrókò

Orixá: Oxalá/ìrókò/ Bará

Elementos: Fogo/Masculino

No Brasil, a gameleira substitui o verdadeiro Ìrókò africano (chlorophora excelsa). A árvore africana faz parte do rol de vegetais do culto de Ifá, e foi sobre ela que as feiticeiras pousaram, mas não conseguiram permanecer, pois seus frutos não as satisfaziam. Foi a terceira árvore onde as Ìyámi tentaram se estabelecer, mas não tiveram sorte.

A Gameleira é considerada, dentro do culto Jêje-Nagô, um vegetal sagrado e adorado como um orixá, Ìrókò. Sus folhas são utilizadas nos rituais de iniciação, nos banhos de purificação e nos àgbo dos iniciados. As folhas são consideradas muito quentes e devem ser utilizadas com cautela, além de serem apanhadas pela manhã bem cedo, pois após o meio dia a arvore pertence à Bará.

BICO_DE_PAPAGAIO

Nome Popular: Bico-de-Papagaio, mulungu.

Nome Científico: Erythrina speciosa

Nome Litúrgico: Odidi

Orixá: Bará/Exú

Elementos: Fogo/Feminino

Os extratos de folhas, cascas e de raízes são usados na medicina popular no tratamento de diversas doenças, tais como disenteria, asma, dor estomacal, infertilidade feminina e, principalmente, infecções microbianas.

Na liturgia esta planta é utilizada para trabalhos com exú, servindo as folhas para lavar o assentamento deste orixá e as flores para adorno nos axés. Podem ainda ser utilizadas em banhos, infusões e/ou na confecção de pós para trabalho.

QUEBRA_DEMANDA

Nome Popular:  Quebra-demanda

Nome Científico: justicia gendarussa

Nome Litúrgico: Não possui nome litúrgico na cultura Ioruba

Orixá: Ogum

Elementos: Terra/Masculino

Na medicina popular é dito ser útil na asma, reumatismo e cólicas das crianças. Ele pode ter o potencial para ser a base de um contraceptivo para homens (estudos estão sendo realizados na Indonésia.

Nos rituais afro-brasileiros, esta planta é popularmente utilizada em banhos, sacudimentos e defumações para melhorar a sorte e abrir caminhos.

ERVA_PRATA

Nome Popular:  Erva-prata

Nome Científico: Solanum argenteum

Nome Litúrgico: Ewé Dígí

Orixá: Oxalá/Oyá/Iemanjá

Elementos: Ar/Masculino

Árvore mediana, suas folhas, na face inferior, têm tonalidade branco-prateada e sedosa, saí o nome erva-prata.

As folhas são utilizadas nos Agbò, em banhos e sacudimentos. Colocadas no chão do terreiro, tem a finalidade de afastar as influências maléficas dos eguns.

Uma História contada pelo povo-de-santo, relata que quando os eguns atacavam o palácio de Xangô, Oyá agitava os dalhos dessa planta, e fazia refletir em suas folhas várias imagens desse orixá. Os Eguns, vendo tantos orixás iguais, fugiam apavorados, pensando que estavam sendo atacados por um batalhão, sem perceberem que eram apenas uma projeção multiplicada da imagem de Xangô na erva-prata. Desse modo, Oyá afasta os Eguns da terra de Obá Kosso.

ARRUDA

Nome Popular: Arruda

Nome Científico: Ruta graveolens

Nome Litúrgico: Atopá Kun

Orixá: Bará/Exu

Elementos: Fogo/Feminino

Polularmente, é utilizada para cortar o mau-olhado em rezas e benzeduras, como também é comum encontrar-se plantadas em vasos, em portas de casas e de comércios, com a finalidade de proteger o ambiente. Colocada atrás da orelha, constitui poderoso amuleto para cortar o azar. Em alguns candomblés jêje-nagô seu uso é proibido, pois consideram como um ewó da nação (interdito).

No Batuque do RS utilizamos de várias formas dentro da liturgia, seus galhos secos servem para confeccionar figas para afastar o azar, suas folhas são usadas em banhos e sacudimentos para o mesmo fim. A arruda possui propriedades adstringente, analgésica, antiasmática, antiespasmódica, anti-inflamatória, anti-hemorrágica, antiepilética, anti-histérica, antinevrálgica (redução de dores do sistema nervoso), antitetânica, carminativa (eliminadora de gases intestinais) e calmante.

GUINE

Nome Popular:  Guiné

Nome Científico: Petiveria alliacea L., Phytolaccaceae

Nome Litúrgico: EWÉ OJÚÙSÁJÚ

Orixá: Orumilá/Odé/Ogum/Bará

Elementos: Terra Marculino

Como Preparar Banhos com Ervas de Axé Corretamente

Embora muitos pensem que basta ferver as folhas, o preparo correto exige respeito e intenção. No nosso artigo detalhado sobre banhos com ervas, nós ensinamos o método tradicional de extração do sumo.

A Técnica de Quinar as Folhas

Em primeiro lugar, priorize sempre as ervas frescas. O ato de “quinar” (macerar com as mãos) libera o sangue vegetal que contém o Axé vivo. Certamente, este processo potencializa o efeito espiritual muito mais do que uma simples infusão com plantas secas.

O Momento Ideal para o Banho

Além do preparo, o estado mental do praticante influencia o resultado. Enquanto você prepara o banho, mantenha orações ou pontos cantados em mente. Eventualmente, essa conexão mental sintoniza a sua vibração com a energia da planta escolhida.

FAQ: Perguntas Frequentes sobre as Folhas Sagradas

O que significa o termo “Ervas de Axé”?

Esta expressão define as plantas que possuem propriedades energéticas específicas para o uso em rituais afro-brasileiros, como o Batuque e a Umbanda.

Posso misturar qualquer erva para qualquer Orixá?

Absolutamente não. Cada divindade possui afinidade com elementos específicos da natureza. Por esse motivo, você deve consultar um guia especializado ou ler sobre a classificação das ervas no sistema Iorubá antes de qualquer uso.

Onde posso encontrar essas ervas sagradas?

O cenário ideal envolve colher as plantas em matas preservadas. Contudo, se você mora em áreas urbanas, pode cultivá-las em seu próprio jardim de axé para garantir que o Axé esteja sempre ao seu alcance.

Conclusão: O Caminho Verde da Espiritualidade

Dominar o segredo das ervas de axé representa um passo fundamental para qualquer pessoa que deseja aprofundar sua fé. Se você busca equilíbrio, as folhas oferecem o caminho mais curto para a conexão com o sagrado.

Gostou deste conteúdo informativo? Descubra mais segredos da nossa religiosidade explorando nossa página sobre o Rei Xangô e entenda como a justiça divina se manifesta no mundo.

BLOG

Continue lendo nosso Blog…

Rolar para cima